Entrevista ao Correio Popular

ENTREVISTA
Médico da PUC-Campinas defende valorizar medicina humanizada. Em entrevista exclusiva ao Correio Popular, o médico ortopedista Carlos Augusto de Mattos, diretor clínico do hospital, afirma que a atenção médica integral é uma forma essencial de proporcionar a recuperação de pacientes: o hospital conquistou nota máxima em gestão e se tornou referência nacional, por meio da consolidação junto ao SUS

Publicado 17 de Outubro de 2021 – 10h17

Por Rodrigo Piomonte

Foto: Ricardo Lima

Equipado com um moderno centro cirúrgico de alta complexidade e protocolos com nível de excelência máximo, certificado pela Organização Nacional de Acreditação (ONA), uma entidade que avalia a qualidade de serviços de saúde, o Hospital PUC-Campinas se consolida como uma referência na região e em todo o Brasil. Para falar sobre o desafio de gerir um complexo hospitalar com 80% de atendimento voltado ao Sistema Único de Saúde (SUS) e outros temas ligados à saúde, o Correio Popular entrevistou o atual diretor clínico do hospital, o médico ortopedista Carlos Augusto de Mattos, que presta a sua homenagem aos profissionais da medicina pelo Dia do Médico, celebrado amanhã, dia 18 de outubro em todo o país.

Com cerca de dois milhões de atendimentos ao ano, o hospital filantrópico desenvolve um esforço coletivo e diário para oferecer um atendimento médico e hospitalar de qualidade aos pacientes, independentemente de sua condição financeira. Requisitado por grandes instituições para o desenvolvimento de pesquisas, como o Hospital Israelita Albert Einstein e o Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo, a exemplo dos testes com a vacina da Janssen contra a covid-19, o Hospital PUC-Campinas, se orgulha de ostentar o nível máximo de certificação dos padrões brasileiros de qualidade e segurança em saúde.

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Com 48 anos de idade e quase 30 de profissão, o dr. Carlos é natural de Brasília e está em Campinas desde os 17, quando ingressou na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde cursou engenharia mecânica, uma de suas paixões, antes de descobrir a sua verdadeira vocação: a medicina. Casado com a ginecologista, dra. Silvia Mattos, com quem tem duas filhas, o dr. Carlos se orgulha de construir uma família de médicos, uma vez que suas herdeiras também devem trilhar o mesmo caminho profissional. Uma delas, inclusive, já ingressou no curso de medicina.

Há quatros anos à frente da gestão do Hospital PUC-Campinas, o dr. Carlos compartilha nesta entrevista, a convite do presidente-executivo do Grupo RAC, Ítalo Hamilton Barioni, sua experiência como ser humano e trajetória profissional. Comemora avanços tecnológicos no setor e faz crítica à chamada verticalização da medicina, caracterizada pela compra de hospitais por grandes operadoras de saúde que, segundo ele, compromete a relação entre médico e paciente e desumaniza o atendimento. Sobre a covid-19, ele relembra momentos mais dramáticos, quando vivenciou a perda de companheiros de trabalho para a doença. Acompanhe os principais assuntos abordados na entrevista.


Como ingressou na Medicina e o que a profissão significa para o senhor?

Vim de uma família totalmente fora da medicina. Meus pais exerciam cargos administrativos no setor público. Sou o primeiro médico da família, embora, ingressei na Unicamp, inicialmente, no curso de engenharia mecânica, por conta da paixão por máquinas, carros, motos e pela mecânica. Mas o curso, em si, só durou o tempo de eu conhecer o laboratório de anatomia humana da Faculdade de Ciências Médicas, ainda no primeiro ano de faculdade. Isso me fez enxergar minha verdadeira vocação. Desde então, me encontrei. Quanto à escolha pela ortopedia, acho que foi relacionada aos esportes que sempre pratiquei e, claro, ao gosto pela mecânica. Essa associação resultou na minha opção pela ortopedia. Para mim, pessoalmente, não consigo me enxergar fazendo outra coisa. Comecei com 17 anos e não parei mais. Nunca vejo a medicina como um trabalho. Tenho muito prazer em estar no hospital e em atuar na cirurgia. Eu me dedico bastante.

Como é administrar um hospital filantrópico, como é o caso da PUC-Campinas, e garantir eficiência no atendimento e equilíbrio financeiro?

É o nosso desafio diário. Estou na PUC-Campinas há 19 anos. Entrei para dar aula e estou como chefe da ortopedia há oito anos e como diretor clínico há quatro anos. É toda uma vida aqui dentro. O hospital atende 80% SUS e 20% convênios privados e particulares. Quando eu comecei, só atendia SUS, porque a área de convênios surgiu pela demanda dos próprios convênios que não tinham hospital e por uma questão financeira, óbvio. O SUS é subfinanciado e é deficitário. Os procedimentos são deficitários. Infelizmente, por melhor que seja o contrato com o SUS, se o hospital tratar apenas contratos do SUS, vai ficar deficitário e fechar as portas. Convênios e particulares surgem com a missão de fazer com que as receitas geradas financiem o SUS. E é isso o que acontece. A PUC-Campinas é uma instituição filantrópica, ou seja, sem finalidade de lucro, sendo toda a receita de atendimentos de convênio e particulares revertida para cobrir o déficit do SUS e para investimentos em melhorias. O que acontece aqui, na verdade, são três hospitais em um só. Temos um hospital escola, temos um hospital do SUS e temos um hospital de convênios. Tudo funcionando num mesmo complexo. É um desafio triplo. Tratamos o aspecto pedagógico e educacional, ao mesmo tempo temos que ver o atendimento SUS, que é uma legislação complexa, com protocolos específicos e uma série de burocracias, e eu tenho um outro mundo que é o atendimento de convênios, que traz outro tipo de legislação e de negociação. São três mundos diferentes, que por mais que se conectam, em muitas situações num mesmo hospital são gestões completamente opostas.

É comum haver diferença entre o atendimento SUS e convênios ou particulares?

Isso acontece. Tem hospitais em que esse atendimento é diferenciado, mas não aqui no hospital da PUC-Campinas. Aqui, se eu tenho um aparelho de ressonância magnética dos mais modernos, e nós temos, ele é usado pelos pacientes de convênio, particulares e também pelo SUS. Não existe distinção. Desde que a gente colocou o atendimento de convênio, é como se tivéssemos subido a régua do SUS. O atendimento do SUS é no mesmo nível do de convênio. A gente não tem, por exemplo, um antibiótico barato ou mais barato. A gente tem o melhor e que atende ao convênio, ao particular e ao SUS. Todos usam os mesmos. Os protocolos usados pelos nossos pacientes são também os mesmos. A PUC-Campinas faz questão de ser sempre igual. Às vezes o convênio não cobre e o SUS cobre, e a gente usa do SUS também. Mas atuar assim gera o déficit financeiro, o que aumenta o desafio da gestão, mas é nossa missão. A gente tem que fazer isso. Seria mais prático reduzir o SUS e aumentar os atendimentos de convênios, e assim eliminaríamos o déficit, e seríamos um hospital que geraria mais lucro, mas não é isso o que a gente visa. Visamos investimentos no SUS. Buscamos atender as pessoas.

Recentemente foi anunciado aumento no repasse de recursos estaduais para o hospital. Como funciona a questão e como isso se reverte em benefícios para a população?

O hospital é filantrópico, não é público. A gente vende serviços que são contratados pelo SUS. O governo federal, o município, repassa verbas para a gente através da Secretaria de Saúde. É feito um contrato com a Secretaria de Saúde onde a gente tem as metas a serem cumpridas por mês. O hospital recebe se cumprir a meta de atendimentos e procedimentos planejada junto aos órgãos públicos. Se não cumprir não recebe. Então, a gente vende os serviços e é cobrado por isso. Somos sempre auditados para verificar se estamos cumprindo as metas, por exemplo, de números de cirurgias e etc. O Estado dava muito pouco diretamente, porque a gente tem um vínculo maior com o município.

Qual o aspecto ou a novidade que mais lhe chamou a atenção nesse aporte de recursos do Estado?

O interessante dessa nova verba anunciada é que tinha vários projetos do Estado de destinação de recursos para as Casas de Saúde e Santas Casas e hospitais filantrópicos. O próprio Estado, sem nenhuma interferência política ou nossa aqui do hospital, fez uma avaliação de um novo programa de aumento de verba para os hospitais e fizeram uma distribuição de 330 santas casas e hospitais filantrópicos e começaram a fazer de acordo com as metas cumpridas entre as instituições e os municípios. Então eles pegaram os números de hospitais com mais leitos e que melhor atingia as metas de produção e a gente foi o primeiro a ser visitado entre os 330. Então, para a gente, foi uma alegria dupla. Primeiro, pelo recurso disponibilizado. Claro, toda a verba ajuda, mas o mais interessante foi que o nosso hospital foi reconhecido como um hospital que atinge metas, ou seja, trabalha bem para o SUS. E com isso tivemos aumentado os recursos destinados em mais de dez vezes.

Com esse alívio nos cofres, como o hospital pretende aplicar esses recursos novos?

Se virar mesmo projeto de lei, todo ano vai ser renovado esse recurso. E a gente vai usar esse dinheiro com novas linhas de tratamento. Como a gente foi até certo modo surpreendido com uma notícia boa dessa, agora é que estamos fazendo um planejamento de aumento de procedimentos para ter claro o montante do recurso que será utilizado. Ou seja, a gente oferece mais serviços em troca dessa verba. Mas o hospital só vai receber essa verba se produzir o equivalente a isso. Óbvio que é um ganho muito bem-vindo, porque a nossa missão é ajudar a população e nós vamos usar todo esse dinheiro aumentando serviços. O Estado não dá dinheiro se não tiver uma contrapartida. Então a gente faz o planejamento de aumento de procedimentos e quem regula isso é o Estado, através de uma central de regulação. O município e a região ganham muito. Para se ter uma ideia, em um levantamento interno que realizamos, em 2020, o hospital só não atendeu pacientes de dois estados brasileiros. De todos os outros Estados nós atendemos pacientes.

O setor de pesquisa também é uma característica do hospital. Qual é a sua importância na busca por melhoria do atendimento?

É uma necessidade dos hospitais, hoje em dia, fazer essa parte de protocolos e pesquisa, além de uma oportunidade também. Nosso hospital inaugurou o Centro de Pesquisa São Lucas, há cerca de cinco anos, justamente para avançar nessa direção. Havia pesquisas sendo desenvolvidas por médicos do hospital, mas essas não eram centralizadas. Com o Centro de Pesquisa São Lucas, a gente juntou tudo. Um centro de pesquisa que começou do zero e hoje é um dos maiores do Estado. Diferente da ideia de testes em cobaias, as pesquisas tratam as pessoas com os melhores remédios que existem. Então, as pesquisas desenvolvidas no hospital envolvem remédios caros, muitas vezes difíceis, laboratórios sérios e que fazem tratamentos que muitas pessoas não teriam condições de fazer. É realizada a pesquisa e, depois, se a pessoa precisa desse remédio ele é garantido. E muitos pacientes melhoram, justamente, porque têm acesso a medicamentos mais eficazes. Para o hospital é bom porque também é uma fonte de entrada de recursos e para o paciente também, porque ele tem acesso aos melhores medicamentos existentes. Nosso centro de pesquisa atua, por exemplo, em várias pesquisas da covid-19, por exemplo, no desenvolvimento de vacinas mais eficientes. Então, esse nosso centro de pesquisa está em franco crescimento, porque não tem como falar em medicina sem falar em pesquisa e novas tecnologias.

Quais os avanços já podem ser sentidos pelos pacientes com o resultado dessas pesquisas?
A gente tem uma necessidade muito grande de qualidade, então aplicamos inúmeros protocolos, como o da cirurgia segura, que garante ao paciente seguir uma série de passos até ele ir embora de volta para a casa. Outro exemplo é o protocolo de fratura de idoso, a gente sabe que se demorar mais de 48 horas internado o idoso começa a ter uma chance de 4% de óbito ao dia. Então, nesses casos, a gente cumpre o protocolo em quase 90% dentro da meta. Um idoso chega no SUS, convênio ou particular, com uma fratura, por exemplo, e a gente coloca no protocolo e ele é operado em até 48h. Isso reduziu 55% o tempo de internação, que era de 8 a 9 dias, em média, e baixou para 3 a 4 dias de internação. Isso foi traduzido em mais vidas salvas, melhor qualidade de vida, menos tempo de internação, menos custo para o Estado e para o município, bom para o convênio, pois entregamos um serviço melhor e bom para a família do paciente. Existe uma certificação de qualidade que se chama Organização Nacional de Acreditação (ONA) e que é responsável pelo desenvolvimento e gestão dos padrões brasileiros de qualidade e segurança em saúde. É bem rigoroso e vai de um a três. Nosso hospital conseguiu nos últimos anos o ONA 3, o padrão máximo. Somos os únicos da cidade e da região a ter essa classificação. Então a gente fica muito feliz, mas a responsabilidade é grande.

Como foi lidar com a pandemia, com o colapso na área da saúde, com o negacionismo e os diversos tratamentos precoces? O que fica de aprendizado e quais as perspectivas para o pós-covid?

Foi um cenário que só ouvíamos falar em filme. Uma verdadeira guerra. Em um momento no final de 2019 estávamos tranquilos, ouvindo falar que havia alguma coisa de vírus lá na China e dias depois a coisa explodiu. Antes mesmo do vírus chegar ao Brasil, chegou o pânico. Vivenciamos profissionais em desespero com medo de se contaminar e levar a doença para familiares. A adaptação a uma série de protocolos a serem seguidos. Muita informação desencontrada quando o assunto era segurança dentro dos hospitais. Tivemos perdas de companheiros. Aqui mesmo perdemos três amigos. Foi tudo muito difícil, mas muito difícil mesmo. Chegamos a usar os medicamentos que depois foram confirmados ineficazes, mas no início era o que se tinha. Sempre nos pautamos pela ciência. E até muitas vezes fomos confrontados e pressionados até por pacientes. Mas hoje vemos que trilhamos o caminho correto. Foi um grande aprendizado. O mundo e a classe médica não estavam preparados. Mas agora avançamos muito. Minha preocupação neste momento recai sobre o represamento de tratamentos não-covid-19, que ficaram para trás durante os períodos de enfrentamento da pandemia. Aqui ainda não abaixamos a guarda. Reduzimos leitos, mas a atenção com o vírus segue total, mas esperamos um novo problema, com esses tratamentos que ficaram represados, e que podem ter suas situações pioradas devido ao tempo sem acompanhamento e tratamento adequados.

Como médico, qual a avaliação que você faz sobre a polêmica da obrigatoriedade do certificado de vacina?

O país sempre teve na questão da vacinação um ponto muito forte. As campanhas sempre tiveram grande adesão. Sou totalmente a favor da obrigatoriedade do certificado da vacina, que na verdade sempre existiu. Não entendo agora, com a covid-19, isso ser questionado. Sempre tivemos que apresentar carteira de vacinação para entrar em determinado país, até para prestar concurso público. Não podemos abaixar a guarda neste momento. O país tem que seguir avançando na imunização da população e se preparando para garantir que a circulação e a transmissão do vírus sejam contidas. E o certificado de vacinação é obrigatório, é uma estratégia muito válida.


A crise na área da saúde que o país enfrenta por conta da pandemia tem colocado a profissão de uma maneira nunca antes vista no noticiário recente. O que você pensa disso?

Para a medicina, de uma maneira geral, eu fico um pouco preocupado pelas condições que estão surgindo para os novos médicos trabalharem. Grandes empresas, operadoras na área da saúde, estão comprando convênios e hospitais, no que a gente chama de um processo de verticalização, e exagerando na utilização de certas novas práticas. Então o convênio compra o hospital, compra o laboratório, compra tudo e aí vai dominando o mercado de trabalho do profissional de saúde e, com isso, vai se impondo uma série de condições de trabalho, protocolos, maneiras de atender, que são preocupantes, principalmente na questão tempo de atendimento. Podemos ver isso nesse exemplo desse grande convênio de São Paulo que todos estão ouvindo falar, e que atende idosos. Ali é o espelho de como funciona uma verticalização não saudável. E que muitas vezes impõe ao profissional um atendimento rápido, apontando o que é mais barato, tirando a autonomia do profissional, e isso me traz um ponto de reflexão sobre os caminhos que serão trilhados na relação médico e paciente.


E quanto à evolução tecnológica que ocorre na medicina, como o sr. avalia?

A parte tecnológica vai bem, a telemedicina e o atendimento à distância vieram para ficar. Isso é muito bom. Tem a parte de evolução de medicamentos e remédios também que vai bem, mas a reflexão fica nessa questão da relação médico e paciente. Acho que se não tomarmos cuidado podemos estar perdendo muito nessa parte. O contato médico e paciente, desde o início do atendimento, dá a segurança para todas as partes. A questão da telemedicina não pode ser o final. Tenho pacientes que relatam assustados que passaram por um atendimento de dez minutos e já foi lhes indicado uma cirurgia. Tem coisas que eu acho que precisa tomar muito cuidado, para não se tornar algo muito impessoal. Pode ser que o futuro seja esse o caminho, mas mesmo com médicos bons, equipamentos bons, existem sempre chances de complicações. E nesses casos faz muita diferença o contato médico e paciente, desde o início do atendimento.

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